Pinocchio do Giramundo

   

A edição 2007 do Goiânia Em Cena será aberta pela mais importante companhia de teatro de bonecos do Brasil, uma das mais brilhantes do mundo:  o Giramundo.

 

O grupo mineiro apresentará sua versão de  Pinocchio,  um espetáculo no qual expressa a tradição criativa, inovadora e de pesquisa na busca da expansão da linguagem do gênero.

 

A montagem presta homenagem ao boneco mais famoso de todos os tempos adaptando As Aventuras de Pinocchio, texto original do italiano Cario Collodi (pseudônimo de Cario Lorenzini), escrito em 1883.

 

Profundamente humanista, Pinocchio estabelece uma metáfora sobre o destino e a condição do homem.

 

Diferente do imaginário que cerca a história e o personagem, carregado de leituras líricas e aventurescas, a peça é voltada ao público adulto e propõe uma discussão sobre a formação do ser humano e sua inserção na sociedade.

 

 

Pinocchio  traz diversas inovações técnicas e no processo criativo no grupo.

 

Além de ter sido concebido em conjunto pelos integrantes do Giramundo, Pinocchio conta com a colaboração de grandes nomes das artes mineiras: o Grupo Galpão emprestou a maioria das vozes aos personagens, o duo musical O Grivo foi o responsável pela criação da trilha sonora e pelo design do som, e a bailarina e coreógrafa Thembi Rosa realizou a coreografia para os atores-marionetistas.

 

A história da criação de Pinocchio, dentro do grupo, remonta a 2002, quando Marcos Malafaia e Ulisses Tavares propuseram ao então diretor e fundador do grupo Álvaro Apocalypse a adaptação do texto de Collodi, com a perspectiva de apresentar uma síntese das criações e propostas estéticas do grupo.

 

 

Pinocchio

Giramundo Teatro de Bonecos

Belo Horizonte, Minas Gerais

Adulto

Teatro Goiânia, dia 22 de outubro, 21h

 

Quem é o Giramundo

 

O Giramundo é um dos grupos de teatro de bonecos mais atuantes e premiados em todo o mundo. Foi criado em 1970 pelos artistas plásticos Álvaro Apocalypse, Terezinha Veloso e Maria do Carmo Martins.

 

O Giramundo preserva a maior coleção privada de marionetes do Brasil, com 859 bonecos. Aberto em 2001 para abrigar esta coleção, o Museu Giramundo reúne o acervo de bonecos produzido pelo grupo e informações sobre Teatro de Bonecos do Brasil.

Processo criativo

A história da criação de "Pinocchio", dentro do grupo, remonta a 2002, quando Marcos Malafaia e Ulisses Tavares propuseram ao então diretor e fundador do grupo Álvaro Apocalypse a adaptação do texto de Collodi, com a perspectiva de apresentar uma síntese das criações e propostas estéticas do grupo.

Ao ler o texto, Apocalypse apontou uma série de dificuldades, já que muitas das ações eram praticamente impossíveis de serem realizadas por um boneco.

Rendendo-se à insistência, o diretor tomou o texto e fez uma primeira adaptação, voltada ao público infantil e bastante resumida do originai de Collodi.

Apocalypse chegou a produzir diversos desenhos dos bonecos, mas a montagem foi deixada de lado, diante dos seus problemas de saúde.

Após a perda do criador do Giramundo, em setembro de 2003, o grupo decidiu dar continuidade do processo iniciado por Apocalypse.

 

Beatriz Apocalypse, Marcos Malafaia e Ulisses Tavares assumiram a responsabilidade de levar adiante o projeto completando a adaptação iniciada.

O texto de Collodi foi escrito originalmente em forma de folhetim e, mesmo depois de ter sido compilado pelo próprio autor, foi composto de uma grande variedade de situações e apresenta uma forma bastante fragmentada.

A narrativa é construída basicamente por ações, com poucos diálogos, dificultando ainda mais a adaptação para o teatro de bonecos. Outro aspecto relevante do texto é seu teor delirante, obscuro e até agressivo.

Trata-se de um drama de aspectos quase trágicos, carregados de sentimentos ambíguos.

Diante das releituras do texto e da dificuldade em traduzir as propostas de Álvaro Apocalypse em sua ausência, o grupo optou por realizar uma nova adaptação do texto e partir para uma montagem completamente distinta.

O personagem principal - um boneco de pau - é moldado até sua transformação em um ser humano.

Por ser um marionete, Pinocchio realiza ações impossíveis de serem praticadas por um ser humano.

Ao mesmo tempo, ele expõe sua enorme fragilidade, tornando-o uma fonte de sentimentos comuns e presentes no dia-a-dia de qualquer pessoa.


As situações e desafios da trama submetem o personagem a sucessivas derrotas e experiências que o fazem tornar-se humano.

Sua personalidade intempestiva e bruta vai é lapidada ao se deparar com o mundo real que o cerca.

Ao longo da peça, ele vê-se obrigado a lidar - e aprender a lidar - com suas emoções diante do amor, da morte, das ilusões cotidianas.

É uma história sobre a adaptação dos instintos naturais à vida em uma sociedade repleta de regras, que reprime, tolhe o prazer e, muitas vezes, o desejo espontâneo. Uma sucessão de pequenas tragédias.


A proposta do grupo foi estabelecer uma analogia entre a máquina e o ser humano, o boneco e o homem.

"Pinocchio" propõe um jogo teatral no qual marionete e ser humano são colocados lado a lado e questionados.

O primeiro está sujeito à manipulação do marionetista, o segundo é vítima das normas impostas pela sociedade, da ilusão de um livre arbítrio e de um destino imprevisível.

A máquina está onipresente no espetáculo e explora a estrutura de engrenagens, articuladas, expondo o fluxo natural e vital, seja da sociedade ou do próprio corpo do homem-marionete.


O método de criação em grupo resultou em um diálogo com outras linguagens e uma possibilidade de pesquisa artística enorme.

A montagem experimenta e ousa. Expõe no palco todas as técnicas para homenagear Pinocchio e também Álvaro Apocalypse, criador de uma linguagem única, que agora se desdobra.

Ele, Pinocchio, protagonista, é apresentado em várias técnicas tradicionais do teatro de bonecos: pantin, fio, boneco de balcão, luva, sombra e bonecos gigantes.


O cenário, a luz, o som, a utilização do vídeo, o diálogo com o corpo e com as artes plásticas estão presentes no espetáculo a partir de uma demanda do texto e da necessidade criativa do grupo.

O duo de música contemporânea O Grivo, já parceiro do grupo, criou uma sonoplastia na qual os personagens, os diálogos, as emoções se fundem para criar uma atmosfera sonora compacta e particular, indo além daspropostas sonoras para o espaço convencional do palco italiano.


A montagem contou com a colaboração da coreógrafa e bailarina Thembi Rosa, que realizou um trabalho de preparação corporal inédito no grupo.

Os bonecos, pela primeira vez na trajetória do Giramundo, foram confeccionados totalmente em madeira, na maioria das vezes, originada de móveis antigos e demolições.

A necessidade técnica de manipulação e interação entre ator e marionete também se apresenta como campo de pesquisa para o grupo.


A iluminação dialoga com as emoções e ambiguidades dos personagens e apresenta inovações ao lidar com movimentos dentro das próprias cenas, assumindo inclusive função de personagem.

O trabalho de interpretação das vozes é especial, pois traz a colaboração dos atores do Grupo Galpão, uma parceria
há muito almejada.


Outra importante conquista do grupo foi o diálogo com a linguagem do vídeo e do cinema.

A imagem em movimento, para o Giramundo vem sendo uma constante.

Agora, é incorporada de maneira criativacomo nunca antes.

"Pinocchio" está carregado de cortes, closes, travelings, movimentos de câmera.

Isso tudo no palco, com proposta teatral, dramatúrgica e de pesquisa.

O vídeo está em cena, exibido através de um teatro de sombras filmado digitalmente: passado e presente.


"Pinocchio" é um espetáculo que carrega a história e a experiência do mais importante grupo de teatro de bonecos do país e que aposta no futuro, mantendo a tradição criativa, inovadora e de pesquisa na
busca da expansão da linguagem do gênero.

Ficha técnica


Texto original Carlo Collodi
Direção Geral, Cenografia,
Iluminação e Marionetes Beatriz Apocalypse, Marcos Malafaia,
Ulisses Tavares
Adaptação de Texto Beatriz Apocalypse
Trilha Sonora e Design de Som O Grivo
Direção de Arte Marcos Malafaia
Direção de Video e Projeções Ulisses Tavares
Direção de Cena Beatriz Apocalypse
Assistência de Direção Ana Flávia Fagundes
Coreografia Thembi Rosa
Equipe Teatro de Sombra Daniel Herthel, Guilherme Amarante
Edição de Vídeo Rogério Sarmento
Coordenação de Produção Carluccia Carrazza
Produção Ricardo Malafaia
Pintura dos Bonecos Sandra Bianchi
Figurino Renata Bessa
Modelista Rosângela Oliveira
Execução Cenográfica Felício Alves e Giramundo
Oficina de Apoio Gianfranco Fiorini
Marionetistas Ana Flávia Fagundes, Giulianna Gambogi,
Guilherme Amarante, Paulo Emílio Luz,
Raimundo Bento, Rooney Tuareg
Construtores Marionetistas + Denise Mansur,
Eduardo Felix, Gilberto Ferreira Alves,
Márcio Miranda, Maria Leite,
Sophia Felipe, Thiago Guimarães
Acabamento de Bonecos e de Cenografia Eduardo Felix, Sandra Bianchi
Equipe de Apoio de Acabamento Ericsson Franco, Julia Bianchi
Projeto Gráfico Fabiano Barroso, Marcos Malafaia,
Piero Bagnariol
Fotografia Pedro Motta
Atores / Personagens
Antônio Edson
Arildo Barros
Beto Franco
Chico Peluccio
Cláudio Márcio de Lima
Eduardo Moreira
Ezequias Marques
Fernanda Vianna
Inês Peixoto
Itamar Bambaia
Márcio Miranda
Marcos Malafaia
Paulo André
Raimundo Bento
Rodolfo Vaz
Teuda Bara
Ulisses Tavares
Estagiários
Maquiagem
Cenotécnica
Divulgação
Assessoria Jurídica
Assessoria Contábil
Gestão de Projeto
Fotolito e Impressão
Agradecimentos

Este espetáculo é dedicado a Álvaro Apocalypse, Terezinha Veloso e Madu, criadores do Giramundo.

 

Sinopse de Pinocchio

por Marcos Malafaia

Era uma vez um pedaço de pau.
Pinocchio parece incompreendido.

Envolto em nebulosas aventuras, correndo alucinado sob uma chuva infindável, ora fugindo de bandidos, ora buscando desesperado saciar uma fome sem sentido, este personagem misterioso permanece enclausurado, como condenado, na simplicidade colorida das interpretações que o transformaram no mais famoso dos bonecos.

Mas, talvez, o Pinocchio de Carlo Collodi ainda surpreenda.

Desencravado de uma madeira mágica, passada de mão em mão até a acolhida do velho Gepeto, emerge de um trabalho perfeito, quase um milagre, tornando-se aparição fantasmagórica, fatalmente destinada a agruras, que finaliza seu périplo transformando-se num menino de verdade.

A história se completa mas não termina, ao contrário, estilhaça-se nos mil poros abertos.

É encantador perceber que a saga da marionete mágico e indestrutível, construído para cantar, dançar e dar piruetas, talvez seja a nossa, dos seres humanos, de nossos desejos reclusos e frustrações amargas, de nosso ímpeto desvairado para a vida e das numerosas armadilhas e trapaças, artefatos meticulosos que nos modelam dentro de garrafas.

Interessaram-nos estas semelhanças, mesmo que imaginárias, estas correspondências, mesmo que forçadas, estas afinidades, mesmo que óbvias, entre os ritmos das marionetes lenhosas e nossas vidas de carne e sangue.

Nos atraem os pequenos nós resolutos, as teias e tramas, os longos fios translúcidos, os jogos e dramas, estas caligrafias indecifráveis de uma vida de acúmulos e colisões, ajuntamento de pequenezas e perspicazes lubrificações em nome da nobre e incansável manutenção de mecanismos.

A máquina caiu como uma luva sobre Pinocchio e como chumbo sobre nós.

Autômatos movidos e reconstruídos ad infinitum repetindo uma sina ruidosa, claudicante e absurda até o desgaste final.


Mas nem tudo são engrenagens e farpas, há flores também, mesmo que em sonhos, mesmo que cenário de pesadelos.

Brotos de desordem. As linhas são tortas, a madeira é torta, os fios são retos. Nós nos esforçamos muito, para aplainar tudo, para fazer reluzir, para iludir, para cada ponto estar em um lugar, mas não somos o instrumento preciso.

Nos resta rir e chorar, chorar e rir.

Indiferente, o Tubarão, geômetra que tudo impulsiona e nada vê, não se importará e seus ciclos repetirá, como um espelho face a face, como um cubo perfeito a girar, a destruir e recriar o perfeito anel.



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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2007