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Montanhas do Sucesso
O filme Ainda há Pastores? do jovem e charmoso português Jorge Pelicano foi o grande vencedor da nona edição do FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental, realizado na Cidade de Goiás, no Brasil, de 12 a 17 de junho de 2007. Sucesso de público em Portugal e colecionando prêmios mundo afora, Jorge Pelicano - em entrevista exclusiva - conta os bastidores do trabalho, resultado de sua obstinação e fascínio pela montanha. Com agenda cheia no circuito internacional de festivais, na batalha por um novo projeto de cinema, também compromissado com a defesa da meio-ambiente e da cultura, Jorge Pelicano é uma figura de destaque da nova geração. Ele chamou a atenção do público que conferiu o FICA, ao lado de Herminio Carvalhinho, o simpático pastor protagonista do filme e, em pouco tempo, deixou sua marca e muitos fãs no Brasil.
Jorge Pelicano - O prémio veio na melhor altura. Este é o meu primeiro filme e é uma grande ajuda para dar continuidade à minha carreira. Por outro lado, este prémio significa que o público e o júri reconheceram o meu trabalho ao longo dos 5 anos de produção, sendo igualmente uma forma de incentivo para fazer mais filmes.
Jorge Pelicano - Sinceramente quando cheguei ao FICA não tinha grandes expectativas, nem boas nem más. Era o meu primeiro grande festival internacional. Contudo, e depois da passagem do filme no Cine Teatro, senti que podia ser um dos candidatos à vitória. Tivemos uma ovação de quase um minuto e grandes felicitações por parte dos meus colegas realizadores e público em geral.
Jorge Pelicano - Em primeiro lugar tenho um grande fascínio pela montanha. Os pastores enquanto habitantes da mesma, eram algo que eu sempre desejei conhecer. Muitas das vezes andam misteriosamente escondidos e esquecidos bem cimo das montanhas. Por outro lado, acho que era altura de fazer um tributo a estes homens e mulheres. É das profissões mais difíceis do mundo, sem feriados, férias ou fins-de-semana que está em vias de extinção. Para um cineasta/documentarista acho que é minha missão retratar uma realidade e uma cultura antes que desapareça.
Jorge Pelicano - Sou um ambientalista de consciência mas não militante em organizações. Quanto à minha formação académica, sou licenciado em Comunicação e Relações Públicas actualmente estou frequentar um Mestrado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra em Portugal
Jorge Pelicano - Durante as filmagens foi a primeira abordagem aos pastores e algumas condições climatéricas adversas que encontrámos nas montanhas. No entanto, a fase mais difícil foi a pós produção visto que tínhamos quase 80 horas de filmagens e foi complicado dar uma linha inicial e coerente ao filme.
Nádia Timm - O filme tem um ritmo, explora a paisagem e várias histórias. De repente, muda completamente, a partir do momento em que você enfoca apenas o pastor Herminio Carvalhinho. Por que fez esta opção? Jorge Pelicano - O Hermínio é claramente o centro da história. Ele é o pastor mais novo da montanha e interessava-me perceber como um jovem de 27 anos consegue viver isolado numa montanha sem ter os amigos, festas, namoradas por perto, ou mesmo férias e fins-de-semana. Noutra perspectiva, o objectivo era perceber as características dos pastores na actualidade (as suas reivindicações, desejos, etc). No entanto, não podia deixar de fora outras histórias paralelas (as crianças, a velhinha que vive sozinha) que pela sua beleza humana e visual tinham que estar incluídas no filme.
Nádia Timm - Qual a contribuição do filme para a valorização do trabalho do homem do campo? Jorge Pelicano - O Ainda há pastores? mostra que existem pessoas e gentes que muitas vezes ninguém dá por elas mas que têm um papel fundamental para o equilíbrio do ecossistema. Trabalham a terra e interagem directamente com a natureza.
Jorge Pelicano - Está a ser fantástica. Desde Outubro de 2006, fizemos mais de 40 apresentações com algumas salas esgotadas (400 pessoas), recordes de audiência (idênticos ao Mundial de Futebol) aquando da transmissão televisiva, e uma mediatização em todos os meios de comunicação social em Portugal. Depois de ter chegado do Brasil, o filme foi editado em DVD e já se encontra esgotado em algumas lojas. É um fenómeno único no panorama audiovisual português.
Jorge Pelicano - Ainda há pastores? estreou em Outubro de 2006 no CINE ECO (Festival de Cinema Ambiente da Serra da Estrela) e foi logo distinguido com o Prémio Lusofonia – melhor obra a concurso, produzida e realizada em país lusófono, e ainda obteve uma Menção Honrosa atribuída pelo júri da juventude. Em 2007, já foi laureado com o Prémio Atlântico, no PLAY DOC (Espanha), Prémio Imprensa, no Festival CAMINHOS DO CINEMA PORTUGUÊS e o Grande Prémio Cora Coralina no IX FICA (Brasil) – considerado o maior Festival de Cinema Ambiente do Mundo. Participou igualmente no EcoVision e Ecofilms na Itália e Grécia, respectivamente. Nos próximos meses o filme vai estar presente em vários festivais internacionais, na Estónia, Itália, Espanha, México e República Checa.
Nádia Timm - Em que projetos está investindo? Jorge Pelicano - Neste momento estamos a preparar uma candidatura para um subsídio do Ministério das Cultura português para a realizar mais um filme. Vou novamente retratar o interior rural de Portugal e a sua desertificação mas numa perspectiva mais interventiva.
Jorge Pelicano - De uma maneira geral os filmes que vi eram bons. Apenas noto que em alguns a qualidade técnica não era muito boa, algo que tem que melhorar nos próximos anos. “Always Cola Coca” e “King Corn” para mim eram os principais candidatos.
Jorge Pelicano - O documentário de Al Gore, “Uma verdade inconveniente” pela visibilidade que teve, despertou e alertou consciências para a verdadeira magnitude dos problemas ambientais e riscos para a humanidade que daí resultam. O Brasil, nomeadamente o FICA, assume neste domínio um papel importantíssimo. Num documentário recente sobre a Amazónia verifiquei que finalmente os políticos brasileiros começam a agir e punir quem fere o principal pulmão do planeta terra. Contudo, penso que ainda há muito a fazer, pois a economia anda sempre à frente do ambiente. Acredito que as questões ambientais vão passar a ser tema dominante da humanidade nas próximas décadas pois só quando chegam os problemas é que se tentam solucioná-los em vez de os evitar.
Nádia Timm - O que achou da sua vinda ao Brasil? E do FICA? Jorge Pelicano - Foi a primeira vez que estive no Brasil. Comigo foi o Hermínio. Ajudei a concretizar um sonho deste jovem pastor. Fomos recebidos por pessoas fantásticas que nos ajudaram bastante. Participei num dos maiores festivais de cinema ambiente do Mundo. Ganhei. Não podia ter corrido melhor.
Nádia Timm - Obrigada pela entrevista.
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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2007 |