Furacão Hilda

 

Aos 72 anos, dois anos antes de sua morte, em 2002, quando HILDA HILST teve seu trabalho reeditado em coleção, pela Editora Globo, concedeu via e-mail, uma de suas últimas entrevistas. Por telefone, o escritor José Mora Fuentes, seu amigo dedicado, explicou que ela estava doente e intermediou o contato.

Nádia Timm - O que significa para a senhora ver sua obra reeditada?

Hilda Hilst- Todo mundo tem me perguntado isso e eu só posso responder que parece evidente que todo escritor se alegre de ter seu trabalho publicado.

Só acho uma pena que comigo tenha demorado tanto, teria sido ótimo se tivesse acontecido quando era mais moça. Aos 72, a gente fica contente, mas, ao mesmo tempo, isso já não importa tanto. 

 

Nádia Timm -A senhora já declarou que escreve de modo simples e que é um absurdo não a entenderem. A qualidade de seu trabalho, em forma e conteúdo, está além de nossa época?

Hilda Hilst- Minha linguagem é inovadora sim, e essencialmente poética.

Não obedece a convenções gramaticais, tem outro ritmo porque não pensamos nem sentimos de forma simplizinha, organizada ou linear.

Sei que não escrevo do jeito que a grande maioria dos leitores está acostumado a ler.

 A forma é inovadora, mas não incompreensível, dizer que sou incompreensível é bobagem. Eu escrevo em português. Tem um amigo meu, o Edson, que recomenda que eu seja lida em voz alta.

 A linguagem, para mim, é o que justifica você contar alguma coisa, porque as histórias, há milênios, são sempre as mesmas.

O homem não mudou, nossos questionamentos e pavores são os mesmos, não modificamos nenhuma das nossas realidades essenciais, nossas emoções, ainda nascemos e morremos como desde sempre, apesar da luta dos cientistas e dos místicos para alterar isso. 

 

Nádia Timm -O fato de desenvolver seu texto de forma não linear (me dão a impressão de espirais, ciclos de mergulho profundo, como polifonias da música barroca) pode ser uma das causas dessa "incompreensão"?

Hilda Hilst- É, se você não escreve "Bom dia, dona Maria, como vai?", com vírgulas e maiúsculas, isso já atrapalha.

E também se você coloca personagens que se questionam com mais profundidade. 

 

 

Nádia Timm - A senhora admite que a loucura une toda sua obra. "Loucura" sintetiza sensibilidade, percepção, forma de expressão diferente do convencional?


(...) a entrevista completa será publicada no próximo livro de Nádia Timm.

 

eNT...

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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2007