Paralisados na dor

Brasigóis Felício

Sentimos prazer em sofrer. Isto comprova o quanto é forte nossa vocação para a infelicidade.

Paralisar na dor nunca vem em prol de nosso crescimento. Geralmente vem em seu detrimento. Estamos sempre a buscar um lugar (no tempo, ou paisagem) em que possamos ser felizes.

Mas não há melhor lugar no mundo para quem não se faz presente naquilo em que vive. Mesmo não dando conta de resolver nossas próprias trombadas existenciais, muitas vezes nos comprazemos em ser babás emocionais de babás de eternos bebês emocionais, de alta atormentada ou vazia, cujo sofrimento, além de ser contagioso, vicia.

São pessoas perturbadas, com síndrome de turbulências mentais. Ao entrar em sua atmosfera, começamos a nos consumir com elas. Entramos em desafeição explícita por nossa própria felicidade.

Ao passar a ser guias geniais das dores dos outros, acabamos por nos tornar seus indutores e propagandistas. Nos fazemos infelizes por engano de solidariedade.

Com a morte na alma, mas felizes por desfrutar da fama de sermos grandes terapeutas (ao modo dos antigos estafetas), que iam de rua em rua, de cidade em cidade, a levar cartas de felicidade a pessoas que jamais a tiveram como vontade – sequer a viram mais gorda, ou querem saber qual é a sua graça, ou o seu endereço.

Deste modo passamos a cultivar a infelicidade como estilo de vida.

Outros existem que, de tanto congelarem-se em suas dores antigas, tornam-se idólatras do sofrimento – adoradores arrendatários de suas dores imaginárias, enamorados de sua pestilência.

Isto confirma o quanto muitas vezes buscamos ser infelizes a todo custo. Não importando o quanto esta vocação fatídica infelicita os que nos são próximos – e que são inocentes de nossa escolha fatídica.

Tais criaturas tanatológicas fixam-se tanto, em sua dor sem razão, que vão consumindo, pouco a pouco, a integridade do Ser, que lhes servia como barco ou farol, em meio às tempestades da vida.

Por não querer retomar sua marcha, assim tomando o caminho aberto da eterna novidade da vida, ficam paralisadas na dor, como se esta fosse vocação ou destino de seu corpo agora morto.

Henry Miller, escritor da raça dos malditos, no-lo diz:

“Por mais que sintamos necessidade de justificar nosso inexplicável comportamento, ainda é certo que, quando decidimos viver, gozar a vida, nenhum desses fatores que nos perturbam, angustiam e frustram têm a mínima importância.

Conheci aleijados e inválidos que eram fontes irradiantes de alegria e inspiração. E conheci homens e mulheres “de sucesso” que pareciam chagas supurando”.

Se tivéssemos o poder de fazer os mortos ressuscitarem, o que poderíamos oferecer-lhes que a vida já não tenha oferecido e continua a oferecer, em toda plenitude?

O que se pode dizer a pessoas jovens que, no próprio umbral da vida adulta de homens e mulheres, atiram-se como cães aos seus pés e suplicam um pouquinho de conforto?

O que tomou conta desses jovens para, em vez de desconcertar o mundo com seus ferozes pensamentos e feitos, já buscarem meios de fugir do mundo?

O que está acontecendo para tornar os jovens velhos antes do tempo, frustrados em vez de liberados?

O que lhes dá a idéia de que são inúteis e inadequados para a luta pela vida?”.

brasigoisfelicio@hotmail.com

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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006