Aceitar a vida


Brasigóis Felício

Há uma ordem no amor que não pode ser traída. E sempre pede para ser respeitada. Ao ferirmos esta ordem, criamos nódulos na circulação da energia – e isto nos desarmoniza. Assim como, no tempo, tudo o que não é o presente é reflexo do que não existe: ilusão de Maya. No centro nos sentimos em harmonia com as ordens do amor. Estamos em contato com o amor que cura. Na periferia só nos identificamos com o amor doente, que nos faz viver em angústia, de perda e apego, ou nos atira aos abismos da noite escura da alma.

Mágoas são nódulos, ou cancros emocionais. As mais profundas são as que duram mais – e degeneram em metástase, matando rapidamente a solidão ferida que as abriga. Sem contar que atingem mortalmente todas as vidas que estão próximas.


Muitas vezes tornamos inútil o nosso amor, acabando por fazer com que seja desastroso – para nós mesmos, e para as pessoas que julgamos amar. Isto por fazer do amplexo, inicialmente generoso e aberto, um sentimento venenoso e opressivo, nascido de nossos conflitos e sofrimentos, que não trouxemos à consciência. E que, muitas vezes, são frutos, de culpas, tristezas e arrependimentos que não nos pertencem.

No dizer de Bert Hellinger, teólogo e terapeuta, criador da técnica Constelações familiares, “O lugar mais íntimo da nossa vergonha é onde nos guardamos, para que nada de mau nos aconteça. É o lugar onde nos sentimos mais entregues”. Este lugar evitado e escondido a todo custo, onde nos sentimos mais entregues e vulneráveis, pode ser o sítio emocional que escolhemos inconscientemente, para expiar a dor sem razão que nos acomete. E que, muitas vezes, têm suas causas em dores herdadas da constelação familiar.

A saída para o círculo vicioso do amor que adoece e mata é, no dizer de Bert Hellinger, é nos sentir intensamente vivos, ao ser “tomados a serviço”. Em um poema inspirado, ele nos diz como se dá a alquimia que transforma o amor que adoece em um amor que cura: “A brisa sopra e sussurra, a tempestade varre e enfurece, e no entanto, é o mesmo o vento, o mesmo canto.

A mesma água nos tira a sede e nos afoga, nos carrega e sepulta. Todo ser vivo se desgasta, se mantém vivo e se aniquila. Em ambos os casos, a mesma força os impele. Ela é que conta. A que servem então as diferenças?”. Quem não diz sim à vida que recebe, e não reconhece nem agradece aqueles que a deram, acaba por não tê-la inteira. Ou passam sua existência a sabotá-la, assim concedendo espaços à morte em si mesmos.

Para Bert Hellinger, devemos ser intensamente fiéis a este sentimento religioso de gratidão e reverência aos que nos doaram a vida. Só depois de fazer esta profunda reverência agradecida aos nossos pais, “aceitamos a vida, com todos os seus limites e possibilidades”.

eNT...

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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006