CRISPINIANO TAVARES

Aidenor Aires

Há cem anos, 13 de fevereiro de 1906, falecia em Rio Verde, o escritor Crispiniano Tavares. Baiano de Ilhéus, nascido em 28 de outubro de 1855. Estudou no Rio de Janeiro e em Minas, onde se formou em Geologia pela Escola de Minas e Ouro Preto.

Seus estudos foram custeados pelo Imperador D. Pedro II. Depois de formado, foi pessoalmente agradecer seu benfeitor, como narra em interessante depoimento incluído em seu livro póstumo, Contos Inéditos, publicado por amigos, em Uberaba, quatro anos após sua morte.

Em 1883, foi encarregado pela Cia. De Mineração Goiana, de realizar estudos das lavras da mina do Abade, em Pirenópolis. Segundo Basileu Toledo França, seu maior biógrafo, no fim do século XIX e começo do século XX, este cientista e escritor manteve permanente contacto com Goiás.

Reuniu importante material para a construção de seus contos, lendas e anotações folclóricas. Em 1904, viajou a cavalo de Uberaba até as nascentes do rio Araguaia. Puro prazer de observar a natureza e acampar naquele sítio ainda edênico. Durante esses anos, Crispiniano exerceu sua profissão de engenheiro e topógrafo, medindo fazendas e fazendo levantamentos no Sudoeste goiano, principalmente Jataí e Rio Verde.

Os memoriais descritivos dos trabalhos técnicos estavam recheados de informações e ilustrados com desenhos produzidos por ele, incluindo o registro da fauna local. Em seus escritos, retratava os indivíduos, os costumes, com a clara intenção de contribuir para o conhecimento da região.

O folclore, crendices, tradições, provérbios e lendas eram também utilizados na construção dos personagens e das narrativas. Escrevendo na transição do século XIX para o século XX, Crispiniano é um pré-modernista, pelos temas locais, interioranos, a linguagem, os costumes e os tipos sertanejos.

É um pioneiro da nova literatura brasileira consagrada pelo Modernismo em sucessivas gerações. De Euclides da Cunha, Afonso Arinos, Monteiro Lobato, José Lins do Rego, Graciliano Ramos ao grande Guimarães Rosa. Em Goiás, Crispiniano é o iniciador do conto em nossas letras.

Certamente foi leitura de nossos maiores regionalistas, iniciando por Hugo de Carvalho Ramos, mas é possível encontrar lembranças de seus temas, tipos ou linguagem, em Carmo Bernardes, Bernardo Elis e em muitos outros. Seu livro publicado em 1910, em Uberaba, certamente chegou às mãos dos estudiosos e intelectuais de Catalão, Meia Ponte, Bomfim e Vila Boa.

Sua obra foi criteriosamente estudada por Basileu Toledo França, em Crispiniano Tavares: Contos, Fábulas e Folclore, pela Editora oriente, em 1975.

Agora, no centenário de sua morte, é preciso recordar a contribuição deste baiano ilustre à literatura goiana. Examinar sua importância e possível influência na conformação do nosso regionalismo. Movido por idealismo e paixão, Crispiniano teve vida agitada e criativa, acabando por morrer assassinado em 1906, em Rio Verde, envolvido em um drama passional.

 

Aidenor Aires é escritor, da Academia Goiana de Letras

 

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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006