Nádia Timm
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Outros carnavais dos outros O carnaval já estava no ar. Era um clima de batuque, fantasia, viagem para o litoral, feriadão. Uma semana antes, os roqueiros mais famosos do mundo, naqueles primeiros anos do século 21, chegaram ao Brasil e, junto com eles, matérias repetitivas nas televisões, rádios, jornais, portais: Rolling Stones nas areias de Copacabana. E dá-lhe chavões. Dinossauros do rock repetiam as colunas sociais. A mesma receitinha intragável, idêntica, repetitiva. Vontade de curtir esse rock de butique repetia Mariana, enquanto tentava espremer uma espinha, se olhando no retrovisor do carro. - Ta certo, os caras são feras. Mas pô, que saco. Não tenho grana para ir até o Rio de Janeiro, como a caipirada está fazendo. - O Mick Jagger magrinho, macaco aos pulos de Satisfation e eu aqui parada numa cidadezinha de merda, no interior do Brasil. Mariana acelerou, furou sinal, fez um gesto obsceno para o motorista ao lado. Tudo isso ao mesmo tempo em que passeava em devaneio, nas lembranças dos videoclipes. Dois dias depois, os escoceses chegaram. -Bom, agora sim, é puro punk! Mas estou sem grana. Droga! O jeito é encarar aquela merda de cobertura da tv. Mariana deitou no sofá da sala, com o laptop no colo e de olho na telinha. -Bono, bom, muito bom. Quanta poesia, Beautiful day. “Brrazill é um país muiiito bonito!”. Repetiu mais uma vez, no ritual da poesia cantada. Via, ouvia, disparava e-mails: “melhor que a cobertura dos Stones”, teclou no MSN usando o nick Miss Sarajevo. Mocinha feliz essa tal Mariana. Feita de dias ensolarados, vida vidinha de barriga cheia, alegrias adolescentes. O telefone toca: - Alô, Pancada! E aí véi. Curtindo a maior sonoterapia? Eita carnaval, bom hei. O celular canta: - Alô, mãe. Estou comendo bem, sim. Não, terminei o namoro, estou quietinha em casa. Aproveitando pra ficar meditabunda. Só relax. O Skype geme: -Alô, Lúcio. Tudo ótimo. Não quero conversar nada com você, por enquanto. Não fiquei chateada, não é isso. Mas não rola mais, vou procurar minha turma e você procura a sua. Tchau. O Messenger buzina: -Sim, pai. Fiquei sabendo que a terra tremeu em Alto Paraíso. Ainda bem que não fui acampar. Tem notícia da galera? Desligou todos os aparelhos. Sentou na escada, com uma laranja numa mão e a faca na outra. Fazia tempo que não assistia ao pôr-do-sol, nem ficava sozinha tantos dias. Precisava da solidão. Tinha muito que buscar nos baús do sótão. Queria ler a papelada que encontrara por acaso, há duas semanas, em plena faxina. A caligrafia bonita, harmoniosa, arredondada contava uma história comovente, de outros tempos, de outra era. Era uma vez... eram estas anotações: Segunda-feira, 4 de abril. Estou cansado de passar dias e noites fechado neste cubículo, assistindo a vida do alto, vendo de cima a rua pouco movimentada, os quintais com seus lençóis pendurados. Sou vizinho de gatos e morcegos. Minha paisagem são os telhados. Talvez esse sofrimento todo não faça sentido e mereça ser transformado em palavras. A luta armada é uma missão dolorosa, uma guerra civil nos bastidores, enquanto a vida prossegue calma e feliz para os outros. Tenho de ser forte e suportar esta semi-vida nas sombras. Eu e meus fantasmas. Sinto que recuperei um pouco as forças, mas não recuperei a fé. Acho que está tudo perdido. Pelas frestas piso e das paredes escutei a conversa, enquanto tomavam chá. Os prisioneiros foram levados para o Rio de Janeiro. Falavam aos sussurros. Ainda procuram por alguém, um homem ou uma mulher. Quando ouvi isso, agradeci aos céus. Ela está viva. Em algum esconderijo naquele vilarejo, na mata, ou em alguma fazenda. Ela está viva! Agora, sim, tenho um motivo para seguir pelejando. Uma batalha perdida, um amor perdido. Sinto-me um verme.
Sábado, 11 de abril. Eles se sentaram à mesa e brindaram as reuniões familiares. Ouvi os risos das crianças, uma dúzia de netinhos correndo pela casa. Alguém forçou a porta e despertei assustado. Do outro lado, a voz de criança pequena reclamava. Puxei uma mesa e mais uma cômoda para trancar a porta, mas isso era desnecessário. Dona Pilar veio correndo impedir que meninada insistisse em forçar o trinco. Dona Pilar é minha tia avó e estou preso num sótão com minha árvore genealógica inteira a me assombrar. Sou um covarde que chora a solidão e se esconde das batalhas. Vieram novamente me procurar, trouxeram notícias do front. Todos mortos. Sinto febre. Escuto os passos subindo as escadas. Lembro de Paris, quando subíamos as escadas aos beijos e abraços. Na Espanha, a escadaria da Escola Militar, os degraus em Veneza. De onde vêem estes fantasmas? Pergunto à idosa tia querida, que chega devagarzinho, com passos leves. Na madrugada, enfrenta o frio para trazer um prato de comida, frutas, vinho. Sinto fome, sim. Mas outra fome, de vida. Vontade de partir, porém a fronteira está vigiada. Há perigo em cada esquina.
Domingo, 12 de abril. Acho que recuperei o movimento das pernas. Logo vou partir. Escuto os sinos das igrejas e assisto as ovelhas tomarem as ruas ao seu chamado. Hoje um casal de ingleses visitou Pilar. A senhora é amiga de minha tia desde os tempos do colégio interno. Consegui ouvir alguns trechos da conversa e fiquei sabendo que Luísa escapou graças ao noivo que arrumaram para ela. A família conseguiu fazer desaparecer a denúncia, o processo. Luísa não será mais nossa brava guerreira, senhora dos novos tempos. Luísa será mais uma rica burguesa. Minha tia providenciou o cavalo e documentos falsos. Mais alguns dias e parto para Europa. Adios sueños. O ditador teve fôlego, perdemos a revolução, apesar do cuidadoso plano. Parecia perfeito. Não consigo atinar quem foi o delator, se apenas eu escapei com vida. Quero dizer, eu e Luísa. Daqui vejo a revoada de pássaros ao entardecer. Não consigo escrever um verso. Parece que até a poesia dói. Sábado, 5 de maio. Eu e Luísa. Tive a certeza de que foi ela quem nos traiu, A febre voltou junto com as dores lancinantes no estômago. Ela matou os doze homens. Nos meus pesadelos eu a via com asas enormes, suas garras cravadas nos corpos e uma gargalhada ensandecida. Luisa atrasou porque havia nos delatado. Chegaram atirando. A traidora não estava conosco, e só escapei porque tive a sorte de ter saído no instante que invadiram nosso esconderijo. Eu tinha ido fechar a passagem, estava preocupado com os cães que latiam muito, escutei a rajada da metralhadora e não voltei para ver o que tinha ocorrido. Saí correndo pelos quintais e me escondi no galinheiro de Tereza Sem Queixo, a louca. (...)
Luísa, uma traidora! Isto doeu mais do que as balas que atingiram meu corpo. Mais do que esses meses que vivi trancado neste sótão escuro e frio. Nunca vou entender. Lembro dela menina, atenta às histórias das guerras e revoluções, louca para aprender a atirar e usar a espada e as facas. Aprendendo comigo, também às escondidas, as artes do amor. Ela gostava de contar que era filha adotiva, porque sua mãe era uma amazona que partiu para a guerra e a entregou para as freiras cuidarem. Nada faz sentido. Tia Pilar, com sabedoria, me ensina a ter paciência. Com mais de 80 anos, ela se arrisca nos degraus íngremes para me trazer os mantimentos. Ela me consola, repete que conheceu muitas guerras e nenhuma lhe pareceu justa. Não vou contrariar a gentil senhora de cabelos brancos, sempre impecável com seu vestido azul marinho e sorriso carinhoso nos lábios. Finjo que rezo, que a acompanho no terço, enquanto penso nas vitórias do general. Napoleão, em nossas Américas, a semente há de brotar! Domingo, 18 de maio A lembrança de Luísa me enlouquece. Não posso partir sem vê-la. As dores nas pernas voltaram. Minha tia se desespera, quer trazer um médico, mas não posso correr este risco. O plano para fuga está pronto. Já sei a data que o navio chegará ao porto. A conversa das comadres é que a paz está perto. Argentina e Brasil já acertaram os termos do armistício. É só o quê sei. Nos diálogos entrecortados por ruídos de xícaras, o tema principal são os namoros e casamentos. Também falam das modistas, bordados e da saudade de filhos e netos que partiram para a guerra. Dona Alicia que foi minha professora, certo dia pronunciou meu nome, mas não entendi o contexto do diálogo. Ela é uma mulher imensa, loira, descendente de dinamarqueses e espanhóis, sempre vigiou minhas leituras e não se conformou quando parti para escola militar. Teve sete filhos, cinco morreram nas guerras. Mudaram de assunto. Evitaram as lágrimas, falaram de receitas e dos enxovais para a noiva, a filha do capitão, que vai se casar no final do mês. Só consigo pensar em partir e na dúvida que terei de suportar até o fim dos meus dias. Por que, Luísa? Tenho certeza que vou sobreviver. Aqui nos dias e noites silenciosos consegui perceber a minha força, e ela é muito maior do que imaginava porque vem da convicção de que vale a pena lutar. Partirei para uma nova vida e vou guerrear em outras revoluções. O general está morto, mas a sede de liberdade é perene. Segunda, 26 de maio O padre esteve aqui. Tia Pilar o trouxe, apesar dos meus protestos. Suportei o discurso dele, a reza, as palavras de consolo para não magoá-la. Disfarcei meu desprezo à religião que os ensina a se ajoelharem, se humilharem para um Deus feito de ouro e poder. Tenho de partir. Agora, depois da benção divina sinto que corro perigo. Fim das anotações Mariana queria mais. Revirou baús, gavetas de armários e estantes. Nada. Só aquelas folhas amarelas, amarradas com uma fita, haviam chegado às suas mãos trazendo palavras que despertaram o sentimento de vazio e a vontade de amar. -Quem seria aquele personagem, que ancestral era este? Ou não seria algum antepassado? Na quarta-feira de cinzas, passou a tarde na biblioteca do departamento do patrimônio histórico. Cheiro de mofo, sala escura, funcionários obtusos, tão tristes como uma tarde fria e chuvosa, comparou Mariana, que sonhava encontrar a pista de alguém muito especial. Alguém que toma forma de homem em seus sonhos, feito de lembranças, fragmentos de filmes, novelas, romances água com açúcar, clássicos da literatura pornô, revistinhas de quinta, sites de encontro. Um homem sorrindo e de braços abertos, prontos para embalar sua amada. Relê as páginas. - Quanta bobagem. Ele não existe mais. Se é que existiu algum dia. Será que nunca transaram? Ao lembrar do desejo, Mariana fecha os livros e a mochila, sai apressada. Sim, ele existiu. Nome: José de Arimatéia Lopez Gunther Romero. Profissão; médico militar. Morreu aos 36 anos, em Bogotá, num duelo. Republicano, liberal, poeta. Escreveu panfletos, jornais, livros. Perdeu todas as guerras. Porém Mariana não sabe disso, nem descobrirá agora a biografia dele, no livro da terceira estante, ao lado do corredor para o banheiro. A moça tenta se situar, tem pressa, quer fugir do vazio. Pensa: não estou no século 19, não estou em Paris, não estou nas páginas de um romance. Recorda de seu último parceiro sexual, enquanto acende o baseado. Nome: Márcio Andreas Ribeiro. Estudante de Engenharia, 26 anos. Vive em São Paulo, às vezes trepa bem e só aparece nas férias. - Quem me importa é quem existe. O cara que me dá algum prazer. Algum prazer é melhor que nada. Mariana se olha no espelho. Em voz alta repete sua própria idade, peso, altura. - Putz, como estou ignorante, limitada, bitolada. Sei a ficha burocrática. Estou reduzida a números, medidas que não revelam minha dor. Penso, existo e sou um verme. O máximo pra mim é um belo orgasmo de vez em quando, muito de vez em quando. Isto é o fundo do poço. No carro, liga o som e sai cantando pneus. A festa do carnaval tinha terminado, hora de viver a vidinha. Porém, algo acontecera. Mariana sorri, de repente, lembrou que o amor e o sonho existem em qualquer época. Estava feliz e a sensação de alegria aqueceu o corpo, com uma chama, um tesão. Com o coração em festa, sentiu que o carnaval era mais do que três dias.
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eNT . Revista Eletrônica Nádia Timm . 2006 |